Clínica Infantil Indianópolis

A GUERRA DA COMIDA

                                                 A GUERRA DA COMIDA
Devido a modismos da época, aliás de há muito tempo, existe uma tendência a seguir os padrões estéticos em voga, ou seja, o de ser magro. Essa preocupação que à priori parecia se restringir aos adultos, da mesma forma que os comportamentos e os hábitos alimentares, foi sendo transmitida e assimilada pelas crianças, que hoje em dia também não querem engordar.
Temos observado até com certa frequência, nas consultas de puericultura, as mães valorizarem a magreza do filho, agora encarada como elegância, pois já foi o tempo em que se dizia que gordura é formosura.
No entanto, independentemente da idade, ainda existem as preocupações do comer mais para os magrinhos e do comer menos para os gordinhos, assim como a dos que comem razoavelmente bem e não engordam (dos magérrimos) e, paradoxalmente, dos que engordam apesar de comerem pouco.
Enfim! É a guerra da comida.
Quanto à queixa da criança que come pouco, quase nada ou que não come, frequentemente, o problema está mais na cabeça dos pais do que na realidade da criança.
 É a expectativa de que o filho (a) corresponda a uma imagem ideal, por vezes, diferente de suas reais características, de sua constituição física, da sua genética e se a criança é magrinha, miúda, então, na maioria dos casos, os pais sofrem forte pressões familiares, ou seja, das vovós, muitas vezes da vovó sogra – da vovó materna junto ao pai e da vovó paterna junto à mãe – tornando o clima mais apreensivo, beirando ao de terror, com questionamentos e cobranças em tom inquisitivo e intimidativo do tipo: vocês não estão alimentando direito essa criança, se continuar assim vai ficar anêmica, raquítica, é melhor levar ao médico.
O alarme acionado infalivelmente precipita uma consulta emergencial e o pediatra pode se deparar frente à três cenários referentes a queixa ser ou não pertinente.
O primeiro passo é examinar a criança dos pés à cabeça e se o desenvolvimento pondo-estatural estiver compatível com a faixa etária, a queixa não procede e não há uma receita, entretanto, é prudente a solicitação de exames para descartar anemia, verminose e principalmente a infecção urinária que protagoniza a listagem das doenças associadas à falta de apetite mais comuns e dar sustentação ao argumento da alimentação da criança estar adequada e de não haver necessidade de complementos vitamínicos e muito menos de estimulantes do apetite. 
Nesses casos, um argumento que pode tranquilizar os pais e, talvez, as vovós, é o fato das crianças nascerem com um peso aproximado de três quilos e meio e uma estatura de 50 centímetros, os meninos um pouco à mais e as meninas um pouco menos e obviamente que em se tratando de uma gestação à termo (9 meses) e sem intercorrências.
Com um ano de vida, estima-se um peso em torno dos 10 quilos e uma estatura de 75 centímetros, independentemente do sexo uma vez que não há diferenças significativas,
Aritmeticamente, no transcurso do primeiro ano, houve um acréscimo de seis quilos e meio no peso e de 25 centímetros na estatura e se esperarmos um desenvolvimento proporcional nos anos vindouros, as crianças, então, com 10 anos iriam engordar 65 quilos, com mais os quilos do nascimento, teriam um peso de quase 70 quilos e um crescimento de dois metros e meio, somados aos 50 centímetros do nascimento, uma altura gigantesca de três metros, enquanto que o esperado, para essa idade, é um peso que deve oscilar em torno do 18 aos 22 quilos e uma estatura entre 1,35 a 1,40 m.
 Portanto, a partir do primeiro ano, há uma redução fisiológica do apetite por desaceleração do crescimento e é importante a observação de que as crianças até um ano comem o que lhes é oferecido e depois têm o direito ao próprio cardápio e a quantidade suficiente de alimento é a que satisfaz e proporciona um desenvolvimento satisfatório.
Se a alimentação da criança se restringir à um ovo diariamente e o seu desenvolvimento estiver normal, apesar da estranheza e do argumento não ser muito convincente, não há motivos para preocupação, ainda que se pese um certo ceticismo absolutamente normal, o ovo está sendo suficiente para suprir suas necessidades
Entretanto, passa a ser preocupante, caso a criança se alimente de uma galinha inteira e há uma deficiência no seu desenvolvimento, quando, então, impõem-se uma investigação criteriosa, frente as expectativas que, por serem contrárias, despertam mais estranheza ainda.
De maneira que, não há como fixar o quanto as crianças devem comer em cada refeição, pois cada qual tem seu paladar e um apetite que varia de um dia para o outro e, portanto, devemos aceitar que uma criança nunca irá se alimentar igual à outra e que nem sempre irão comer segundo os desejos, as exigências e as regras da família, comer de tudo e, muito menos, raspar os pratos.
E é razoável que eventualmente não respeitem os horários das refeições habituais e têm até o direito de se recusarem a comer e de não se submeterem a recomendação de alguns idealistas a fazer das refeições da manhã como a de um rei, as refeições do almoço como a de um príncipe e as da noite como a de um mendigo.
De forma que não há como estabelecer a quantidade adequada de alimento a ser consumido em cada refeição, nem qualquer regra draconiana a seguir, pois, com raras exceções, as crianças comem para viver, ao contrário de muitos adultos que vivem para comer.
Contudo, reconhecidamente não é fácil driblar as expectativas, especialmente com relação à alimentação e ao rendimento escolar que despertam maior preocupação e ansiedade familiar em colocar mais coisas para dentro das crianças, pois não há muito a contestar sobre a convicção da criança bem nutrida assimilar melhor os ensinamentos e estar mais preparada para enfrentar o futuro.
E a queixa do meu filho não come assume outras proporções quando a queixa realmente procede, ou seja, quando o desenvolvimento do peso e da estatura estiver deficiente.
Nesses casos, existem três possibilidades: a causa é identificada e passível de tratamento, a causa reconhecida é controlável, mas não tem cura e quando a causa não é definida.
*Quando a causa identificada é passível de tratamento, as perspectivas são favoráveis. O prognóstico é tranquilizador, mas não implica que o manuseio seja fácil frente as evoluções, nem sempre, estarem isentas de complicações.
São exemplos:
Nos lactentes, o desenvolvimento deficiente pode ocorrer devido ao leite materno ser insuficiente ou a técnica (logística) da amamentação ser inadequada e na alimentação com leite artificial: no preparo incorreto da mamadeira (uso de colheres inadequadas ao invés da medida correta, formulando um leite mais diluído) ou quando a criança não deixa resto
(a mãe, por receio de regurgitações ou de cólicas, oferece quantidades menores do que a criança solicita) e até por questões de palatabilidade.
Dependendo da faixa etária e do cortejo sintomático associado, a deficiência do desenvolvimento pode estar vinculada à doença do refluxo gastroesofágico ou a estenose hipertrófica de piloro, devido aos vômitos que sucedem a alimentação; quando com diarreia o problema pode ser atribuído à intolerância à lactose secundária a uma infecção gastrointestinal de etiologia viral  ou causada pelas enterobactérias clássicas ou consequente à alergia às proteínas do leite de vaca (APLV) ou à doença celíaca, nos casos em que a diarreia surge após a introdução do glúten na dieta, através de farinhas na mamadeira ou com a papa de legumes.
Adiciona-se a listagem das doenças, as bronquiolites (bebê chiador), as crises de asma exacerbada, e as anomalias anatômicas como o lábio leporino e a fenda palatina.
*O problema assume outras dimensões, quando a queixa procede, ou seja, o desenvolvimento pondo-estatural está deficiente e não há um tratamento efetivo para erradicar a causa, à exemplo da fibrose cística do pâncreas (mucoviscidose), entre outras, felizmente, extremamente raras.
*Igualmente preocupante, porém, não desalentador, quando a queixa é procedente e não se identifica a causa.
Nesses casos, um termo genérico muito usado na literatura norte-americana, empregado para crianças (geralmente lactentes ou pré-escolares) que apresentam crescimento e desenvolvimento insatisfatórios, sem causa evidente, é o “failure to thrive”, que tem o significado de falta  florescer, mas vai acontecer, vai desabrochar (a rosa ainda vai abrir).
Entretanto, mesmo pesando a constituição genética entre longilíneos e brevilíneos e o que pode vir a favorecê-la, basicamente a adoção de hábitos salutares (alimentares, físicos e emocionais), nem sempre exequível de se levar à termo, sem que em contraste com os costumes familiares, e é o que vem caracterizar a epigenética, não se pode negligenciar de um monitoramento mais amiúde, tampouco, principalmente nesses casos, a coexistência de um fator emocional se sobrepondo à epigenética como o alcoolismo, desemprego, ausência de um dos cônjuges por discórdia familiar ou falecimento, mau rendimento escolar ou muitas cobranças e receio de não corresponder às expectativas, a chegada de um estranho no ninho (nascimento de um irmão), excesso de atividades, mal relacionamento com colegas ou vizinhos, enfim um problema que obrigue um aporte psicológico.
Criança também é gente (pequena) e que por não terem uma exata noção de que nem todos os dias fazem sol, necessitam mais receber do que dar, mais serem compreendidas, estimuladas, amadas, muito mais tudo, do que—-, obviamente que dentro dos limites e da sensatez.  Os excessos nunca são bem-vindos.
Independentemente do critério, é prudente, no dia a dia, uma adequação de costumes, em termos de constância, equilíbrio e uniformidade, sem radicalismo e obviamente que circunstancial e dentro do que a família pode proporcionar:
Uma regra prática das contrapartidas é o dê de cá e tome o de lá: faça a elas o que gostariam que fizessem por você ou melhor: não façam aquilo que não gostariam que fizessem com você. Geralmente o agressor esquece da agressão, mas o agredido não ou, então, demora muito e sempre fica uma mágoa, um ressentimento.
Falar é fácil, escrever nem tanto e fazer é que são elas!! Mas, vamos lá:
– Evitar que coma ou belisque fora dos horários das refeições. Sem festival de chocolates, balas, biscoitos—
– Os horários das refeições deverão ser regulares, porém, não inflexíveis. Convém deixar a criança descansar alguns minutos antes do seu início e não interromper bruscamente a sua recreação.
– A mesa deve estar sempre bem arrumada e o ambiente calmo e agradável, até mesmo com um fundo musical se for hábito da família.
-Evitar reprimendas, castigos e qualquer assunto conflitante que possa gerar discussões.
-Procurar adequar o cardápio de acordo com o clima e com o paladar da criança.
– Oferecer pequenas quantidades de cada vez e deixar que solicite mais daquilo que desejar.
– Evitar a pressa exagerada no oferecimento dos alimentos, assim como que se deixe prolongar em demasia. A refeição deve durar aproximadamente meia hora
– Não agradar, forçar ou chantagear a criança para comer.                                                                                                             
 – Procurar (não é fácil) manter atitude calma e indiferente na recusa da alimentação e variar a apresentação e os temperos dos alimentos recusados.                                                                  
– Não condicionar, principalmente de forma rotineira, o direito à sobremesa ao comer bem no almoço ou no jantar e muito menos: somente se comer tudo, pois devemos considerar a falta de apetite e que o cardápio pode não ter feito o paladar da criança e porque respeitamos o hábito de algumas pessoas que comem menos, com o propósito de reservar um espaço, lugarzinho, para as sobremesas e criança também é gente. Essa imposição, no mínimo, é barganhar, sacanagem para que a criança coma o que queremos e ficarmos com a sensação de missão cumprida.
– Nunca falar na frente da criança que não gosta de uma determinada comida, pois elas tendem a imitar os adultos, sendo frequente o relato da criança não gostar de um alimento sem se quer ter experimentado.
As preferências, assim como ter boas maneiras à mesa, refletem os exemplos da família que lhes servem de padrão desde tenra idade.
Quanto a probabilidade de existir uma tendência familiar para que os filhos de pais gordos e magros sejam também magros ou gordos, não se pode generalizar, mas deve-se relevar, pois afora o possível legado das doenças de caráter genético como o hipotireoidismo e a hiperplasia das supra-renais que  podem condicionar aumento do peso e o hipertireoidismo, assim como a diabetes, o contrário, é consensual que a criança herda os vícios alimentares, assim como os comportamentos inadequados (outras anomalias), inclusive o sedentarismo e a aptidão para a prática desportiva, de seus antecessores, que desde cedo lhes servem de padrão.
Deve-se considerar ainda que o comer exageradamente ou pouco, pode ser consequência de uma situação de ansiedade e quando associada à uma vida sedentária ou ao excesso de atividade física, os epílogos são a obesidade e a magreza.
Com relação à criança que come relativamente bem e não engorda, certamente cresce e esta impressão pode ocorrer geralmente na fase de estirão, devido especialmente ao aumento do tronco, dos dois aos cinco anos e dos 12 aos 16 anos de idade.
Nas meninas, a velocidade máxima de crescimento se dá por volta dos 10 anos, no ano que antecede a menarca e depois, é falsa a informação de não crescerem mais, pois crescem ainda mais seis centímetros até os 20 anos, algumas mais e outras menos, de acordo com a sua constituição genética e da epigenética adotada.
Vale um adendo sobre a hiperplasia das suprarrenais, um defeito genético extremamente raro no qual ocorre um aumento do cortisol (corticosteroide endógeno produzido pelas  glândulas suprarrenais), o que promove uma redução dos níveis de serotonina, que é um aminoácido (proteína) sintetizado no cérebro, na mucosa intestinal e presente no soro sanguíneo, que tem ação tranquilizadora. 
Para compensar essa deficiência, o organismo passa a exigir o consumo de alimentos com potencial de elevar rapidamente a sua produção e daí a compulsão por chocolates, doces e carboidratos e, consequentemente, uns quilinhos à mais na balança.
 A hiperplasia das suprarrenais é rara, porém, os corticosteroides exógenos (anti-inflamatórios e alérgicos esteroides) frequentemente empregados nos tratamentos das bronquiolites (bebê chiador), bronquites e nas exacerbações da asma, também promovem uma diminuição na síntese de serotonina e, portanto, também induzem o aumento do apetite e a predileção por estes alimentos e, daí, o ganho de peso somado ao inchaço (edema da face), causado pela medicação empregada nos tratamentos prolongados, principalmente quando administrada em altas doses.
Transcorrido algum tempo, após a suspensão da medicação, tem-se a impressão de emagrecimento, que frequentemente se atribui à diminuição do apetite, mas também ocorre devido ao desvanecimento do edema.

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